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4 de jul. de 2024

Como a Seleção do Equador ajuda a explicar o racismo no país em que o preto é minoria

Menos de 10% da população equatoriana se declara negra.

por

Marinah Nogueira

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Quando a Seleção Equatoriana entra em campo é evidente a predominância de jogadores negros no elenco, o que pode fazer muita gente pensar: no país eles são maioria. Na verdade, somente 7,2% da população equatoriana se declara negra. 


Tudo começa no século XVII. Como todo lugar que foi colônia na América, os negros vieram escravizados por europeus. Eles chegaram para trabalhar nas minas e nas plantações de cana do país e, desde então, se concentram na província de Esmeraldas, cuja população é 53% negra.


Eu troquei uma ideia com o pesquisador Erick Heredia, sociólogo e gestor cultural equatoriano. Ele me contou que o racismo ainda é muito forte no país, apesar da presença negra, e que os pretos começaram a ter visibilidade por conta da bola nos pés.


“Os negros não existiam antes do futebol. O país só começou a olhar para eles depois de 2002, quando pela primeira vez o Equador é classificado para uma Copa do Mundo”, diz.


A história se repete com suas diferentes facetas em cada país. Após a primeira classificação do Equador num mundial, o país sente que está finalmente no lugar que deveria estar. No final dos anos 90 e início dos 2000, o Equador vive uma sucessão de episódios históricos: desde um conflito militar com o Peru (conhecido como Guerra do Cenepa) a candidatura de Rafael Correa, com um governo progressista focado em justiça social e reforma econômica.


Heredia diz que o início do século XXI é marcado por um boom cultural no Equador. As pessoas finalmente sentem orgulho do país e começam a consumir a cultura local, coisa que antes não acontecia. Jogar bom futebol era uma forma de estar visível para o mundo.



Crédito: Independiente del Valle


Com isso, o orgulho nacional de ser equatoriano floresceu no cinema, na música e nas artes. E então, o Equador passa a ter mais visibilidade dentro do universo latinoamericano, principalmente nos campos de futebol.


A mina de ouro do futebol equatoriano

Relatos históricos descrevem que a concentração da população negra no noroeste do Equador se deu após um navio encalhar na costa. O grupo de sobreviventes escapou pela floresta e se uniu a grupos nativos. A área de Esmeralda ocupa somente 10% do país, mas é o coração da cultura afroequatoriana e berço dos craques da seleção. 


Antonio Valencia, Ángel Mena, Enner Valencia, Segundo Castillo e Carlos Tenorio são alguns conhecidos futebolistas que nasceram na região. No cenário do futebol equatoriano, a contribuição dos jogadores negros se destaca não apenas pela habilidade em campo ou pela influência cultural e social que exercem, mas também pela luta constante e resistência contra o racismo. 


Um exemplo vem do Independiente del Valle (IDV), equipe que conquistou duas vezes a Copa Sul-Americana e que se destaca como formador de talentos como Kendry Paez, Piero Hincapie e Moises Caicedo. O clube implementou o programa Latidos del Valle em sua sede, com o objetivo de combater o preconceito de forma efetiva.


“Criamos um projeto que condena e pune o racismo e uma sala para encorajar os meninos a rebater o ato, mas ainda é complexo. Para certificar que realmente aconteceu um ato racista é preciso testemunhas, seja de jogadores ou de árbitros. E muitas vezes, eles não declaram por medo ou por não quererem se envolver”, contou Michael Arce em papo com o PELEJA. Arce é mestre em psicopedagogia e tutor no Colegio del Independiente del Valle.


Crédito: Independiente del Valle

O racismo de cada dia


Em um país onde a diversidade étnica e cultural é uma característica marcante, ainda assim a exclusão faz sua morada. Michael Arce, além de treinador da base do Del Valle, é afroequatoriano e levou ao tribunal nacional o primeiro caso de crime de ódio por racismo do país. 


Desde então, algumas coisas mudaram. A criação da sala Latidos del Valle, do IDV, foi um projeto pensado para combater o racismo e também a ensinar aos meninos negros como reagir.


“O projeto foi criado ano passado. E vemos que já existe resposta positiva. Por exemplo, em um jogo da categoria sub-13, os jogadores [IDV] sofreram insultos racistas. Em resposta, os meninos fizeram duas coisas: a primeira foi um gol, que comemoraram se ajoelhando e apontando para sua pele, mostrando como eram orgulhosos de sua cor; e a segunda foi que a equipe sub-15 fez a mesma coisa em solidariedade a seus companheiros na partida seguinte”, relata Ana María Morales, antropóloga e coordenadora do Latidos del Valle.



Crédito: Independiente del Valle

As oficinas do programa servem para orientar os meninos a reagirem em caso de ofensas racistas. Quando Morales comenta, um desconforto surge dentro de mim. É inacreditável, angustiante e revoltante pensar como tenhamos que preparar crianças para lidar com a violência de sofrer racismo ao invés de punir quem o profere. Mas é o que eles têm.


Apesar dos esforços diários, a luta está só no começo. Arce comenta que as políticas públicas existem, mas só no papel. Nada é garantido e nem tudo é cumprido como orienta a constituição. É preciso mais, mais justiça, segurança e dignidade de existir. 


O que esperar daqui para frente

A influência dos jogadores negros no futebol equatoriano contribui dentro e fora de campo, seja pela enorme representatividade ou também pelas campanhas educativas e programas de desenvolvimento juvenil, como o Independiente del Valle trabalha.


Crédito: Independiente del Valle

“O futebol é um espaço diverso e amplo. Não deveria existir espaço para nenhum tipo de ódio. A questão que sempre fica é ‘como podemos ir um pouco mais além do que já fazemos e assumir essa responsabilidade?’ Foi uma reflexão que surgiu em um encontro da UNESCO, na Colômbia. Pensamos em ações para a população negra” declarou Morales.


Ela também fala como é preciso que exista uma resposta da sociedade, e também do estado, da escola e famílias, porque eles podem e devem ajudar no fortalecimento dessa identidade. 


Afinal, quem, olhando pra seleção, nunca achou que a maioria dos equatorianos era negra? A representatividade que os negros do país levam ao mundo, seja no futebol ou não, é enorme. Morales cita o professor Juan García Salazar, ativista intelectual, “Eles [jogadores negros] são um grupo de excluídos que representa de coração a um grupo de excludentes”. Quando ela termina a frase, algumas coisas fazem sentido, outras não. 


Edi Rock declara em A Vida é Desafio que "O amanhã é ilusório porque ainda não existe. O hoje é real. É a realidade na qual podemos intervir. As oportunidades de mudança estão no presente". E perceber essas batalhas diárias como fundamentos em construção, enquanto reconhecemos que a estrutura racista possui raízes profundas, é um dos pilares do antirracismo. Possivelmente, daqui a 10 anos, ainda enfrentaremos ofensas e insultos racistas, mas com a convicção de que estamos progredindo a cada dia.


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